Inteligência artificial no handebol: estudo alemão propõe nova forma de avaliar o desempenho dos jogadores

Pesquisa realizada com dados de cinco temporadas da Bundesliga desenvolve modelos capazes de identificar a importância de passes, deslocamentos com bola e ações que constroem oportunidades de gol, ultrapassando os limites das estatísticas tradicionais.

Autor:
Professor Fernandes Júnior
Especialista em Handebol

O handebol moderno está entrando em uma nova etapa na análise do desempenho esportivo. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Paderborn, na Alemanha, apresenta uma metodologia capaz de transformar a maneira como treinadores, analistas e clubes avaliam a contribuição ofensiva dos atletas.

Intitulado H-VAEP and H-xT: Valuing Offensive On-the-Ball Actions in Handball by Estimating Probabilities, o trabalho foi disponibilizado em 13 de agosto de 2026, no repositório científico arXiv. A pesquisa, assinada por Julius Broermann, Oliver Mueller, Michael Doering e Jochen Baumeister, utiliza dados de cinco temporadas da Bundesliga alemã de handebol, entre 2021/2022 e 2025/2026.

A principal inovação está na proposta de avaliar não apenas quem marcou o gol ou deu a assistência, mas também os jogadores responsáveis pela construção da jogada.

Muito além dos gols e das assistências

Tradicionalmente, a avaliação individual no handebol utiliza indicadores como gols, assistências, aproveitamento nos arremessos e erros técnicos. Embora importantes, esses números não representam integralmente a contribuição de um atleta para o funcionamento ofensivo de sua equipe.

Imagine uma situação em que o armador central realiza um passe que desorganiza a defesa adversária. Na sequência, o armador esquerdo encontra o pivô em condições favoráveis, criando uma oportunidade de finalização. Na estatística convencional, o maior reconhecimento tende a ficar com o autor do gol e, eventualmente, com quem realizou a última assistência. Mas qual foi a contribuição do primeiro passe? Quanto valeu a movimentação com bola que criou o espaço? Como medir a participação dos atletas que tornaram a finalização possível? É justamente a essas perguntas que os pesquisadores procuram responder.

Dois modelos para compreender o jogo

O estudo apresenta duas ferramentas adaptadas especificamente ao handebol.

H-xT — Ameaça Esperada no Handebol

Esse modelo atribui valores às regiões da quadra conforme a probabilidade de uma posse de bola resultar em gol. A análise permite identificar quais ações transportam a bola para espaços ofensivamente mais perigosos.

Diferentemente de modelos utilizados no futebol, os pesquisadores desenvolveram uma divisão espacial que respeita a geometria particular do handebol, especialmente as linhas de 6 e 9 metros. O modelo adaptado conseguiu trabalhar com 67 zonas mantendo o critério de estabilidade adotado no estudo, enquanto a configuração retangular comparada ficou limitada a 45 zonas.

H-VAEP — Valorização das Ações pela Estimativa de Probabilidades

O segundo modelo utiliza aprendizado de máquina para analisar como cada ação altera duas probabilidades: a de a equipe marcar um gol e a de sofrer um gol nas dez ações seguintes. Isso permite atribuir valores positivos ou negativos aos passes, às ações de progressão com bola e aos arremessos, considerando sua influência no desenvolvimento da jogada.

Assim, um passe que produz uma oportunidade clara de gol pode receber uma avaliação superior à de uma ação aparentemente mais vistosa, mas pouco eficiente.

Os resultados chamam a atenção

Os pesquisadores avaliaram aproximadamente 2,83 milhões de estados de jogo em três temporadas reservadas para testar os modelos. Um dos resultados mais relevantes foi a estabilidade das avaliações individuais produzidas pelo H-VAEP. As classificações apresentaram correlações iguais ou superiores a 0,98 dentro de uma mesma temporada e 0,96 entre temporadas consecutivas, indicadores considerados elevados pelos autores.

Outro resultado importante demonstra que um atleta pode apresentar contribuição ofensiva excepcional sem necessariamente liderar as estatísticas de gols. O jogador mais bem classificado pelo H-VAEP por dez minutos ofensivos ocupava apenas a 55ª posição em gols marcados e a 27ª no índice tradicional HPI. Isso evidencia como algumas contribuições fundamentais para o jogo coletivo podem passar despercebidas nas avaliações convencionais.

O que a ciência identificou sobre as posições?

A análise revelou diferenças importantes entre as funções ofensivas. Nos armadores centrais, 63% do valor ofensivo médio medido pelo H-VAEP teve origem nos passes. Entre os armadores laterais, essa participação foi de 55%. Nas pontas, destacaram-se as ações de progressão com bola, responsáveis por 55% do valor, seguidas pelos arremessos, com 33%. Entre os pivôs, as finalizações e as ações de progressão com bola foram predominantes, enquanto os passes apresentaram contribuição ligeiramente negativa na média estudada.

Esses resultados não significam que determinada ação seja sempre superior a outra. Eles demonstram que o valor de uma decisão depende da posição, do contexto e das características da situação ofensiva.

Diferentes equipes, diferentes identidades táticas

A pesquisa também identificou características específicas de equipes da elite alemã. No SC Magdeburg, 38% do valor ofensivo dos armadores analisados veio de ações de progressão com bola, refletindo um sistema com maior participação de iniciativas individuais e penetrações.

No SG Flensburg-Handewitt, 65% do valor dos armadores teve origem nos passes, indicando uma dinâmica ofensiva mais apoiada na circulação e na construção coletiva. Os dados mostram que ferramentas desse tipo podem contribuir não apenas para avaliar atletas, mas também para compreender a identidade tática das equipes.

O que muda para treinadores e clubes?

A aplicação de modelos como H-xT e H-VAEP abre possibilidades para a análise de desempenho no handebol. Entre elas estão a identificação de atletas com grande capacidade de criação, a avaliação das tomadas de decisão, o estudo da eficiência da circulação de bola e a comparação de diferentes comportamentos ofensivos.

Para os clubes, essas informações podem complementar os processos de contratação, desenvolvimento de talentos e planejamento tático. Na formação esportiva, os conceitos também reforçam uma orientação importante: ensinar o atleta a reconhecer, criar e aproveitar vantagens coletivas pode ser tão relevante quanto aperfeiçoar a execução do arremesso. Entretanto, sua aplicação nas categorias de base exige estudos próprios, pois os modelos foram desenvolvidos com dados do handebol profissional alemão.

Limitações e próximos passos

Apesar dos resultados promissores, a própria pesquisa reconhece limitações importantes. Os modelos desenvolvidos concentram-se nas ações ofensivas com bola. Ainda não avaliam adequadamente contribuições defensivas nem comportamentos sem posse, como bloqueios, criação de espaços e movimentações que atraem defensores. Esses aspectos continuam sendo fundamentais para compreender o rendimento coletivo e precisam integrar futuras pesquisas. Além disso, os resultados constituem evidências apresentadas em um pré-print científico, não devendo ser interpretados como uma metodologia definitiva para todas as realidades do handebol.

Uma nova perspectiva para a modalidade

A principal contribuição do estudo é ampliar o olhar sobre o desempenho esportivo. Em vez de considerar apenas o resultado final da jogada, a metodologia procura compreender o processo que tornou esse resultado possível. Para o handebol, trata-se de uma perspectiva particularmente relevante, porque a modalidade depende intensamente da cooperação, da continuidade das ações e da capacidade de criar vantagens em espaços reduzidos.

A ciência começa, assim, a oferecer instrumentos para reconhecer matematicamente aquilo que muitos treinadores observam diariamente: nem sempre o jogador mais decisivo é aquele que aparece nas estatísticas de gols. Muitas vezes, é quem cria as condições para que o gol aconteça.

Referência científica

BROERMANN, Julius; MUELLER, Oliver; DOERING, Michael; BAUMEISTER, Jochen. H-VAEP and H-xT: Valuing Offensive On-the-Ball Actions in Handball by Estimating Probabilities. arXiv:2608.12926v1, 13 ago. 2026.

Artigo original: https://arxiv.org/abs/2608.12926

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