Estudo publicado em 2026 acompanhou 90 sessões da equipe de Concórdia (SC) em dois macrociclos de 2019 e apresenta reflexões práticas sobre periodização, oposição e tomada de decisão.
Autor: Professor Fernandes Júnior
Especialista em Handebol
A construção de uma equipe competitiva vai muito além da repetição de fundamentos ou da escolha dos melhores sistemas ofensivos e defensivos. Saber quais tarefas propor, em que momento da temporada e sob qual nível de oposição é uma das decisões centrais do trabalho de um treinador. Uma pesquisa brasileira publicada em março de 2026 na revista científica Retos oferece um olhar detalhado sobre esse processo no handebol feminino profissional.
O artigo, assinado por Eduardo José Dallegrave, Mônica Cristina Flach, Mariana Klauck Beirith, Clóvis Arlindo de Sousa e Alexandra Folle, investigou os treinamentos da Associação Atlética Universitária, de Concórdia (Santa Catarina). A equipe foi acompanhada ao longo da temporada de 2019, quando esteve envolvida em competições nacionais e internacionais, incluindo o Super Globe e a Liga Nacional.
A pesquisa em números
Os pesquisadores registraram 90 sessões de treinamento e examinaram 490 tarefas, sendo 255 no primeiro macrociclo e 235 no segundo. A amostra reuniu o treinador principal e 18 atletas profissionais, com média de 23 anos de idade e 11 anos de experiência na modalidade.
O primeiro macrociclo, dividido em quatro mesociclos, preparou a equipe para o Super Globe de 2019. O segundo, também composto por quatro mesociclos, esteve relacionado à Liga Nacional, disputada entre o fim de agosto e o início de dezembro. Esse recorte permitiu observar como a composição dos treinos variava conforme a proximidade e as demandas das competições.
Da técnica isolada ao jogo com oposição
Um dos achados é que a preparação começou com maior presença de tarefas destinadas ao aprimoramento da execução técnica e, nas etapas seguintes, incorporou maior destaque a comportamentos táticos, especialmente ações de grupo e coletivas. A análise identificou associações estatisticamente significativas entre os mesociclos e o tipo de conteúdo trabalhado, o nível e o grau de oposição e o envolvimento cognitivo. Isso significa que os formatos das tarefas variaram ao longo da temporada de maneira mensurável, em vez de permanecerem idênticos do início ao fim.
A equipe utilizou amplamente exercícios de aplicação complexos: atividades que articulam mais de um jogador e exigem respostas a situações táticas e técnicas. Os pesquisadores também destacaram as tarefas em igualdade numérica, bem como cenários de superioridade, oposição controlada e oposição plena.
O papel das situações reduzidas e da tomada de decisão
O estudo examinou diferentes graus de envolvimento cognitivo, desde situações simples, como 1×0, até configurações com cinco ou mais jogadores de cada lado. Entre as tarefas analisadas estavam 1×1, 2×1, 3×3, 4×4, 5×4 e 5×5 ou mais. Essas configurações podem expor atletas a problemas reais do jogo: identificar superioridade numérica, ajustar a circulação da bola, escolher o momento de atacar um intervalo defensivo, coordenar ações com companheiras e responder à pressão da defesa.
A pesquisa mostra, portanto, a importância de variar a complexidade das atividades. A oposição modulada, na qual o defensor restringe possibilidades sem necessariamente disputar diretamente a bola, também apareceu como recurso relevante no planejamento observado.
Qual a principal recomendação para treinadores?
Na seção de aplicações práticas, os autores sugerem, para equipes profissionais, uma organização em que aproximadamente 70% a 75% das tarefas priorizem comportamentos táticos de grupo e coletivos, enquanto 25% a 30% sejam dirigidas às capacidades técnicas. É importante interpretar esses percentuais corretamente: trata-se de uma recomendação dos pesquisadores, baseada na análise do caso e em sua discussão, e não de uma fórmula universal cuja superioridade tenha sido testada experimentalmente contra outras distribuições.
Outra orientação é estabelecer primeiro o modelo de jogo desejado. A escolha dos exercícios deve considerar as competições-alvo, o tempo disponível, as características das atletas e as exigências que o grupo realmente consegue atender. Só então faz sentido distribuir as metas entre macrociclos, mesociclos e microciclos.
O que o estudo não comprova
Embora a equipe investigada tenha uma trajetória expressiva, o trabalho é um estudo de caso observacional. Não demonstra que determinada proporção de exercícios, isoladamente, causou os resultados esportivos. Os autores também reconhecem que a pesquisa se baseou em gravações de vídeo e em parte das variáveis do SIATE, sem entrevistas complementares com o treinador e a comissão técnica. A conclusão mais importante não é abandonar o desenvolvimento técnico, mas integrá-lo a tarefas que desafiem a percepção, a decisão e a cooperação. A técnica continua essencial, porém ganha sentido quando é mobilizada para resolver problemas concretos do jogo.
Uma contribuição brasileira para a ciência do handebol
O estudo valoriza um campo ainda pouco documentado: a observação sistemática do cotidiano de treinamento de equipes adultas e profissionais de handebol. Além dos resultados numéricos, apresenta um caminho metodológico para que treinadores analisem o próprio planejamento e o ajustem durante a temporada.
Nesse estudo, percebo que a pesquisa reforça uma questão decisiva para o desenvolvimento da modalidade: treinar bem não é apenas realizar muitos exercícios, mas selecionar tarefas coerentes com o modelo de jogo, a etapa competitiva e as necessidades dos atletas.
Referência científica
DALLEGRAVE, Eduardo José; FLACH, Mônica Cristina; BEIRITH, Mariana Klauck; SOUSA, Clóvis Arlindo de; FOLLE, Alexandra. Analysis of tactical-technical sports training tasks based on two macrocycles: a successful case of a professional Brazilian women’s handball team. Retos, v. 76, p. 812–825, 2026. DOI: 10.47197/retos.v76.117201. Artigo original: https://doi.org/10.47197/retos.v76.117201