Imagem: Handebol Nacional

Além da técnica: pesquisa científica analisa a inteligência tática de estudantes praticantes de handebol

Estudo investiga como jovens jogadores compreendem o jogo e transformam o conhecimento tático em decisões durante situações reais de ataque e defesa, oferecendo subsídios para professores e treinadores.

Autor: Professor Fernandes Júnior
Especialista em Handebol.

A formação de um bom jogador de handebol não depende apenas da capacidade de executar passes, dribles, fintas e arremessos. Em uma modalidade marcada pela velocidade, imprevisibilidade e constante interação entre companheiros e adversários, saber interpretar o jogo e tomar decisões adequadas é tão importante quanto dominar seus fundamentos técnicos.

Essa perspectiva está no centro do artigo científico “Análise de CTD e CTP de handebol em escolares”, publicado em 16 de outubro de 2026, na Revista DELOS, de autoria de Rithelle Brena Rodrigues Gomes, Frederico Souzalima Caldoncelli Franco, Mauro Lúcio Mazini Filho e Pablo Juan Greco.

A investigação procurou compreender como estudantes praticantes de handebol apresentam dois componentes fundamentais do desempenho esportivo: o Conhecimento Tático Declarativo (CTD) e o Conhecimento Tático Processual (CTP).

Compreender o jogo e saber agir: duas dimensões da inteligência tática

No handebol, a inteligência tática pode ser observada tanto na capacidade de reconhecer a melhor solução para determinada situação quanto na habilidade de executar uma decisão diante das exigências do jogo.

O Conhecimento Tático Declarativo (CTD) está relacionado à capacidade de identificar, interpretar e explicar possíveis soluções para os problemas apresentados em uma partida. Um estudante pode, por exemplo, reconhecer que um companheiro está desmarcado e compreender que o passe representa uma opção adequada naquele momento.

Já o Conhecimento Tático Processual (CTP) envolve a utilização desse conhecimento durante a ação esportiva. É quando o jogador precisa perceber a movimentação dos adversários, identificar os espaços disponíveis e decidir, em uma fração de segundo, entre passar, progredir, fintar ou arremessar.

A distinção é importante porque conhecer uma solução tática não significa, necessariamente, conseguir aplicá-la de maneira eficiente sob pressão. No processo de ensino-aprendizagem do handebol, essas duas dimensões se complementam e ajudam a compreender diferentes necessidades de desenvolvimento dos praticantes.

Como os pesquisadores avaliaram o conhecimento tático?

A pesquisa utilizou uma abordagem observacional, transversal e descritiva, com procedimentos específicos para analisar as duas formas de conhecimento tático. Para avaliar o Conhecimento Tático Processual, os pesquisadores recorreram a situações de jogo reduzido, no formato 3 contra 3, em um espaço de 9 por 9 metros. Essa configuração permitiu observar comportamentos dos participantes durante situações práticas de jogo, considerando suas ações ofensivas e defensivas.

Para o Conhecimento Tático Declarativo, foram utilizadas cenas de vídeo de partidas, a partir das quais os participantes responderam a instrumentos de avaliação destinados a identificar sua compreensão das situações apresentadas. A investigação também considerou características como sexo, idade, tempo de prática e nível de competição dos participantes.

O que a pesquisa identificou?

Os resultados permitiram caracterizar os níveis de conhecimento tático dos estudantes e identificar diferenças descritivas entre os grupos analisados. Também foram observadas diferenças nos comportamentos ofensivos e defensivos durante as situações de jogo. Essas informações são relevantes porque apontam para a possibilidade de compreender o desenvolvimento tático dos jovens jogadores a partir de diferentes características e experiências esportivas.

Entretanto, é importante destacar que o estudo possui natureza observacional e descritiva. Portanto, seus resultados não demonstram, por si só, que determinada metodologia de treinamento provoca melhor desempenho ou que um grupo apresenta superioridade tática generalizável sobre outro. Sua principal contribuição está na caracterização do comportamento dos participantes e na possibilidade de utilizar essas informações para orientar propostas pedagógicas e de treinamento mais adequadas às necessidades identificadas.

O que isso representa para professores e treinadores?

Uma das reflexões mais importantes decorrentes do estudo é a necessidade de considerar o desenvolvimento do pensamento tático durante a formação esportiva. Tradicionalmente, muitas propostas de treinamento privilegiam a repetição de fundamentos técnicos em situações isoladas. Embora a aprendizagem desses movimentos seja importante, o handebol exige que o jogador saiba utilizá-los de acordo com as circunstâncias da partida.

A partir dessa perspectiva, algumas estratégias pedagógicas podem contribuir para a construção de ambientes de aprendizagem mais próximos das exigências reais do jogo. Entre as possibilidades de aplicação estão os jogos reduzidos, a análise de situações por vídeo, a proposição de problemas táticos, a alternância entre situações de superioridade e inferioridade numérica e a utilização de perguntas que estimulem os estudantes a justificar suas decisões.

Em uma atividade de 3 contra 3, por exemplo, o professor pode observar não apenas a execução de passes e arremessos, mas também como os jogadores se desmarcam, ocupam espaços, oferecem linhas de passe, realizam coberturas defensivas e respondem às movimentações dos adversários. Essas são possibilidades de aplicação pedagógica inspiradas na temática da pesquisa, e não intervenções cuja eficácia tenha sido comprovada pelo estudo.

A importância dos jogos reduzidos na formação do handebolista

A utilização de jogos em espaços reduzidos oferece possibilidades interessantes para o processo de aprendizagem. Ao diminuir o número de participantes e delimitar a área de jogo, o professor pode criar situações nas quais os estudantes sejam estimulados a participar mais diretamente das ações, perceber as relações de oposição e cooperação e resolver problemas táticos específicos.

Essa abordagem dialoga com princípios da pedagogia dos jogos esportivos coletivos, nos quais a aprendizagem envolve a interação entre percepção, decisão e execução. Nesse contexto, ensinar handebol significa também criar oportunidades para que os estudantes compreendam por que uma ação pode ser mais adequada do que outra.

O desafio pedagógico não está simplesmente em fazer o jogador repetir um movimento, mas em ajudá-lo a reconhecer quando, como e por que utilizar determinado recurso técnico ou tático.

Avaliar para ensinar melhor

Outro aspecto relevante é o papel da avaliação na organização do ensino. A análise do conhecimento tático pode contribuir para identificar necessidades individuais e coletivas, possibilitando que professores e treinadores adaptem suas atividades de acordo com o desenvolvimento dos participantes. Um grupo que demonstra dificuldades de leitura das situações ofensivas, por exemplo, pode demandar propostas diferentes de outro que reconhece corretamente as possibilidades de ataque, mas encontra obstáculos para executá-las durante o jogo.

A avaliação, nessa perspectiva, deixa de ser apenas um instrumento de classificação de desempenho e passa a constituir um recurso para o planejamento pedagógico. Essa é uma das principais aplicações indicadas pela conclusão da pesquisa: utilizar os dados sobre desempenho tático para subsidiar a organização de atividades de ensino e treinamento ajustadas às características dos grupos.

Ciência e formação esportiva: uma aproximação necessária

A publicação contribui para ampliar o debate sobre os processos de formação de jogadores de handebol, especialmente nas etapas escolares. O trabalho também reforça a pertinência de aproximar a produção científica das práticas realizadas em escolas, projetos de iniciação esportiva e equipes de categorias de base.

No meu ponto de vista, a discussão coloca em evidência uma questão fundamental: formar jogadores não deve significar apenas ensinar movimentos, mas também desenvolver sua capacidade de compreender as situações do jogo e construir soluções diante dos desafios apresentados. O conhecimento técnico, a percepção, a tomada de decisão e a compreensão tática fazem parte de um processo de aprendizagem que precisa ser considerado de maneira integrada.

Mais do que formar estudantes capazes de executar fundamentos, o desafio é desenvolver jogadores que compreendam o jogo, interpretem suas situações e consigam tomar decisões cada vez mais adequadas. Esse é um caminho importante para aproximar o ensino do handebol das exigências da modalidade e valorizar a formação esportiva orientada por conhecimentos científicos.

Referência científica
Artigo: Análise de CTD e CTP de handebol em escolares
Autores: Rithelle Brena Rodrigues Gomes; Frederico Souzalima Caldoncelli Franco; Mauro Lúcio Mazini Filho; Pablo Juan Greco.
Publicação: Revista DELOS, volume 19, número 87, e10343, 2026.
Publicado em: 16 de outubro de 2026.
DOI: 10.55905/rdelosv19.n87-024
Consultar o artigo científico original

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