Pesquisa internacional aponta que atletas que praticam handebol de praia durante o intervalo entre temporadas apresentam menor incidência de lesões, menor necessidade de cirurgias e retorno mais rápido às atividades esportivas.
Autor: Professor Fernandes Júnior
Especialista em Handebol.
A ciência do esporte apresenta novas evidências sobre os possíveis benefícios da integração entre o handebol de quadra e o handebol de praia. Um estudo internacional envolvendo 641 atletas de 36 países identificou que jogadores que praticavam handebol de praia durante o período entre temporadas registraram índices significativamente menores de lesões no handebol de quadra, em comparação com aqueles que se dedicavam exclusivamente à modalidade indoor.
A pesquisa, publicada em abril de 2025 na revista científica Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy, foi conduzida por Hannes Degenhardt e colaboradores, com participação de pesquisadores ligados à Universidade Técnica de Munique, na Alemanha. Os resultados reforçam a importância de investigar diferentes ambientes de treinamento e apontam o handebol de praia como uma possível estratégia complementar de preparação física e prevenção de lesões.
O que revelou a pesquisa?
O estudo analisou informações de 641 atletas, com idade mediana de 22 anos, dos quais 62,1% eram mulheres. Entre os participantes, 321 praticavam handebol de praia durante o intervalo das temporadas de quadra, enquanto 320 jogavam exclusivamente handebol indoor. Os pesquisadores investigaram o histórico de lesões ao longo de três anos, considerando sua localização, mecanismos, tratamentos necessários e tempo de retorno às atividades.
Ao todo, foram registradas 501 lesões em 374 atletas, correspondendo a 58,4% dos participantes. O resultado mais relevante apareceu na comparação entre os dois grupos.
- 225,3 lesões por mil atletas/ano entre os praticantes de handebol de praia e quadra.
- 295,8 lesões por mil atletas/ano entre os praticantes exclusivos de handebol de quadra.
Essa diferença representa uma taxa de lesões aproximadamente 24% menor no grupo que também praticava handebol de praia. Outro resultado expressivo foi a proporção de atletas que relataram ao menos uma lesão: 51,7% no grupo que praticava as duas modalidades, contra 65% entre os jogadores exclusivos de quadra. A análise estatística ajustada também identificou uma associação significativa entre a prática de handebol de praia e menores chances de lesão.
Menos cirurgias e retorno mais rápido ao esporte
Além da menor incidência de lesões, a pesquisa identificou diferenças importantes relacionadas à gravidade dos problemas físicos e à recuperação dos atletas. Entre as lesões registradas, a necessidade de intervenção cirúrgica foi de 24,9% no grupo que também praticava handebol de praia, contra 37% no grupo exclusivo de quadra. Os praticantes das duas modalidades também relataram menor utilização regular de medicamentos analgésicos. Quanto ao retorno ao esporte, 37% dos registros de recuperação no grupo que praticava handebol de praia indicaram volta às atividades em até quatro semanas, enquanto esse percentual foi de 21,9% entre os atletas exclusivos de quadra. Esses resultados sugerem uma possível relação entre a prática complementar na areia e melhores indicadores de recuperação, embora o estudo não permita afirmar que o handebol de praia seja diretamente responsável por essas diferenças.
Joelhos, tornozelos e membros inferiores concentram a maioria das lesões
A pesquisa também apresentou informações relevantes sobre as regiões corporais mais afetadas pelas lesões no handebol de quadra. Os membros inferiores concentraram 66,1% das ocorrências, enquanto os membros superiores corresponderam a 26,3%. Entre as regiões específicas, destacaram-se joelhos, pernas, tornozelos e pés. As situações de contato estiveram envolvidas em 38,9% das lesões, enquanto 22,2% ocorreram após saltos.
Esses dados evidenciam as exigências físicas da modalidade, caracterizada por mudanças rápidas de direção, acelerações, desacelerações, saltos, aterrissagens e disputas corporais. Outro achado interessante foi a menor proporção de lesões relacionadas ao contato entre jogadores que também praticavam handebol de praia.
Por que o handebol de praia pode contribuir para a prevenção?
Embora compartilhem fundamentos técnicos e princípios táticos, o handebol de quadra e o handebol de praia apresentam características distintas. A superfície de areia, as dimensões do espaço de jogo, a quantidade de participantes e as regras específicas modificam as exigências físicas e as interações entre os jogadores.
Os pesquisadores discutem a possibilidade de que essas diferenças contribuam para adaptações motoras e estratégias de movimentação potencialmente favoráveis à prevenção de lesões. Entre as hipóteses levantadas estão as características da superfície de areia, a menor presença de contato físico direto e as exigências de antecipação, posicionamento e transição de jogo. Entretanto, os mecanismos responsáveis pelos resultados observados ainda precisam ser investigados em estudos específicos. Isso significa que não se pode atribuir automaticamente à areia um efeito protetor comprovado.
O que os resultados representam para treinadores e preparadores físicos?
Para profissionais envolvidos com a preparação de equipes, os achados abrem uma perspectiva interessante sobre o planejamento das atividades entre temporadas. A inclusão do handebol de praia pode representar uma alternativa para diversificar os estímulos de treinamento e manter a prática de habilidades específicas do handebol em um contexto esportivo diferente. A pesquisa também incentiva uma reflexão sobre a necessidade de evitar planejamentos excessivamente repetitivos, respeitando a recuperação e as características individuais dos atletas.
Na prática, algumas possibilidades merecem consideração:
- Inserir atividades de handebol de praia em períodos previamente planejados da preparação.
- Explorar situações de jogo que valorizem antecipação, deslocamento, percepção espacial e tomada de decisão.
- Controlar a carga física e adaptar progressivamente os atletas às exigências da areia.
- Integrar o trabalho técnico e tático às estratégias de prevenção de lesões e preparação física.
- Acompanhar individualmente atletas com histórico de lesões, especialmente durante a transição entre superfícies.
Essas são possibilidades de aplicação dos resultados, e não protocolos de treinamento testados diretamente pela pesquisa. O estudo também reforça que a integração das modalidades não substitui programas específicos de prevenção, fortalecimento muscular, recuperação e acompanhamento médico e fisioterapêutico.
A ciência recomenda cautela
Apesar dos resultados positivos, os próprios autores reconhecem limitações importantes. A pesquisa foi realizada por meio de questionários retrospectivos, com informações fornecidas pelos atletas sobre lesões ocorridas anteriormente. Não houve acompanhamento experimental direto nem confirmação clínica independente de todos os diagnósticos relatados. Além disso, diferenças entre os grupos e a possibilidade de que atletas com maior predisposição a lesões evitem praticar handebol de praia podem ter influenciado os resultados.
Portanto, a pesquisa demonstra uma associação estatística, mas não comprova uma relação direta de causa e efeito.
Novos estudos, especialmente aqueles que acompanhem atletas ao longo das temporadas e controlem as cargas de treinamento, serão fundamentais para determinar em quais condições o handebol de praia pode contribuir efetivamente para a prevenção de lesões.
Handebol de praia e handebol de quadra: modalidades que podem se complementar
Os resultados da investigação ampliam uma discussão importante para o desenvolvimento do handebol: a possibilidade de utilizar diferentes ambientes e experiências de jogo como parte de um planejamento esportivo integrado. Em vez de tratar o handebol de praia apenas como uma alternativa recreativa durante as férias ou os intervalos das competições, os profissionais podem começar a considerar seu potencial como modalidade complementar de preparação, desde que respeitados os princípios do treinamento esportivo. Para o handebol brasileiro, o estudo representa uma oportunidade de aproximar ainda mais a ciência da prática cotidiana de clubes, escolas, projetos esportivos e equipes competitivas.
A principal mensagem é que a integração planejada entre o handebol de quadra e o handebol de praia merece atenção científica e técnica. Os resultados são promissores, mas devem orientar novas investigações e decisões fundamentadas, e não conclusões definitivas. Afinal, desenvolver atletas não significa apenas melhorar o desempenho competitivo. Significa também criar condições para que pratiquem o esporte com segurança, continuidade e longevidade.
Matéria elaborada com base em publicação científica internacional.
Referência científica: DEGENHARDT, H. et al. Off-season beach handball participation lowers injury incidence among handball players—A cross-sectional survey on 641 athletes. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy, v. 33, p. 2307–2316, 2025. Artigo original: https://doi.org/10.1002/ksa.12677